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Gatilho para suicídio, doenças mentais viram epidemia entre policiais

Com vergonha de procurar ajuda, muitos agentes e militares acabam tirando a própria vida

Uma bala alojada na medula tirou não apenas o movimento das pernas mas também a vontade de viver do soldado reformado da Polícia Militar de São Paulo (PMSP) Júlio César da Silva. Há 15 anos, ao tentar evitar um assalto, ele entrou em confronto com bandidos. Foi baleado em sua última missão oficial como agente da lei, pois o dano irreversível na coluna o deixou dependente de cadeira de rodas para sempre.

O diagnóstico de paraplegia veio acompanhado de uma depressão profunda. Trancado em um quarto escuro, sem se alimentar adequadamente e dormindo somente à base de fortes remédios, ele tomou a decisão radical de se matar. Com a arma em punho apontada para a têmpora, cão acionado e dedo no gatilho, Júlio César desistiu ao lembrar da filha, à época com 1 ano e 8 meses.

“Não gosto de recordar dessa passagem da minha vida. Mas estou aqui para provar que é possível superar esse sofrimento terrível”, declara o praça. Ele, além de reformado na PM paulista, dá expediente no almoxarifado de uma empresa de transporte.

Ao mergulhar em um estado de prostração que quase o levou ao autoflagelo, Júlio César ingressou nos quadros de uma tropa formada por milhares de policiais país afora que adoece silenciosamente. Tabu nas forças de segurança, a depressão nos quartéis e nas delegacias é mais associada à fragilidade do que tratada como doença.

Com vergonha de pedir ajuda, muitos agentes, praças, oficiais e inspetores das mais diversas instituições ligadas ao braço armado do Estado não conseguem vencer o mal sozinhos e acabam se matando.

O soldado reformado da PMSP Júlio César da Silva chegou a apontar uma arma para a sua têmpora, mas desistiu de se matar

Durante três meses, o Metrópoles se dedicou a buscar explicações para o tema, censurado nas entidades. A reportagem percorreu quatro unidades da Federação, entrevistou mais de 40 pessoas – entre policiais militares, civis e federais, servidores do Corpo de Bombeiros e inspetores da Polícia Rodoviária Federal, psicólogos e psiquiatras – a fim de reportar dramas pessoais e indicar serviços de ajuda disponíveis. Mais do que isso: chamar atenção do poder público para o mal que atinge integrantes das corporações brasileiras e 320 milhões de pessoas no planeta.

As políticas de segurança pública não incluem a saúde mental dos agentes e militares. Percebemos que esses profissionais, de maneira geral, vivem à margem dos programas existentes na área. Os resultados do estudo coordenado por nós mostram que 80% dos policiais não se sentem reconhecidos pela sociedade nem pelos seus superiores. Para o poder público, o investimento é só material: na compra de viatura e na construção de quartéis e delegacias. Os governantes não enxergam o policial como ser humano, por isso ele se sente cada vez mais descartável e adoentado.”

 

Dayse Miranda, socióloga, doutora em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (GEPeSP), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

 

Em 2015, o Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (GEPeSP) entrevistou, por meio de um questionário on-line, 18.007 policiais de diversas instituições em todo território nacional. Desse total, 3.225 já haviam cogitado se matar e 650 chegaram a tentar suicídio.

“Ao aplicarmos o formulário, percebemos que o policial, de maneira geral, vive num contexto de completa ausência da política de segurança pública. E as existentes não elevam esse profissional à condição humana. Ele se torna mais um número”, destaca Dayse Miranda, doutora em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do GEPeSP.

 

Protesto e tiro na cabeça

“A PF só entrou em contato comigo na semana do ocorrido porque queriam entender os motivos que o levaram a se matar”, conta Kátia Aparecida, viúva do agente Eduardo Santana Moreira.

Entre 1999 e 2018, cometeram suicídio 47 agentes e delegados da Polícia Federal. Se fosse um país, a instituição estaria nas primeiras posições do ranking de suicídios, considerando a quantidade de óbitos dessa natureza proporcionalmente comparada ao efetivo, de acordo com o estudo O Trabalho e a Saúde dos Policiais Federais: Análise Clínica do Prazer e do Sofrimento, encomendado pelo Sindicato dos Policiais Federais no DF (Sindpol/DF) a duas psicólogas da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil, são 5,8 suicídios a cada grupo de 100 mil habitantes. Somente na PF, a média sobe para 36,7. No mundo, 14 pessoas se matam a cada 100 mil, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Estresse, desestímulo, jornada excessiva de trabalho e perseguição eram queixas presentes nos discursos de agentes e delegados da corporação que decidiram colocar um ponto-final à própria existência. O agente Eduardo Santana Moreira se encaixa nessa estatística. Em 2015, aos 55 anos, ele vestiu uma camiseta com os dizeres “SOS Policial” e atirou na própria cabeça, dentro da unidade da PF onde estava lotado, em um shopping de Belo Horizonte (MG).

A busca por ajuda no meio policial pode ser entendida como fraqueza, fragilidade e incompetência. Isso absolutamente não procede. Viver o tempo todo sob condições adversas predispõe doenças mentais, por isso são registrados mais casos em países com baixa qualidade de vida. As corporações até oferecem palestras e têm serviços psiquiátricos à disposição, mas são ações sazonais, e não condutas de rotina. Quando o policial se vê em falência do controle das emoções, ele pode entrar num quadro de depressão e estresse pós-traumático que, acompanhado da sensação de incompetência, pode, sim, ser um gatilho para o suicídio.”

 

Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

 

Embora o disparo tenha destruído o palato, os dentes, a língua e a mandíbula, Eduardo milagrosamente permaneceu vivo, em estado vegetativo, até ter o óbito declarado em 19 de setembro de 2016. Para a família, faltou sensibilidade da corporação.

“A PF só entrou em contato comigo na semana do ocorrido porque queriam entender os motivos que o levaram a fazer aquilo. Ele falava muito da falta de acompanhamento psicológico aos servidores, chegou a ter o uso da arma suspenso, mas devolveram”, conta a viúva, Kátia Aparecida Moreira, 52. A filha de Eduardo, Camila Menezes Moreira, 24, tatuou o nome do pai no braço. Ao olhar a assinatura eternizada na pele, ela lembra da última mensagem recebida por ele e não consegue segurar as lágrimas: “Ele me pediu desculpas e disse que me amava”. Deixar recados de despedida é uma atitude relativamente comum entre suicidas.

O comportamento de Eduardo Santana Moreira seguiu o script da maioria das pessoas que se mata, mas raramente é percebido por quem não trabalha na área da psicologia.

“Segundo estudos, quanto mais adversidades no ambiente de trabalho, maior é a incidência de doença mental e, consequentemente, a predisposição para o suicídio. No ambiente policial, mesmo treinados, agentes e militares são submetidos a situações que os levam ao estresse pós-traumático. Associado a outros fatores, isso pode evoluir para a vontade de querer se matar”, destaca a presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Carmita Abdo.

“O problema se torna maior porque as pessoas em volta do paciente têm dificuldade de entender a dimensão da doença”, complementa a docente.

 

“Faltou sensibilidade da corporação”

O marido de Maria das Graças se suicidou após a exoneração dele ser publicada erroneamente no Diário Oficial do DF.

Uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV) publicada em outubro de 2016, intitulada Expectativa de Vida do Policial Rodoviário Federal, do Policial Federal e do Policial Civil do Distrito Federal, traz dados alarmantes sobre o estado mental dos homens e das mulheres responsáveis por zelar pela integridade dos cidadãos brasileiros.

Quase 95% dos entrevistados disseram ter estresse ocupacional, sendo 39% em grau elevado. Nas três forças mencionadas, 36% alegaram sofrer de algum tipo de doença mental. Ao considerar apenas o recorte da Polícia Civil do DF, esse índice sobe para 42%.

O agente da PCDF Francisco Antônio Lopes de Oliveira apresentava indícios de distúrbio psíquico quando estava na ativa, lotado na 31ª Delegacia de Polícia (Planaltina-DF). Segundo a esposa, Maria das Graças Soares de Oliveira, 42 anos, o marido entrou em surto ao tornar-se alvo de um processo administrativo movido pela Corregedoria, no qual era acusado de agredir um cidadão durante exercício do ofício.

Segundo Maria das Graças, o marido foi declarado inocente após as apurações internas, mas, em 29 de setembro de 2014, não se sabe a razão, Francisco Antônio teve sua exoneração publicada no Diário Oficial do DF (DODF). No dia seguinte, o DODF tornou sem efeito a decisão, mas Francisco se matou antes de tomar conhecimento da correção.

“A gente até hoje não sabe por que publicaram a exoneração dele, mesmo tendo sido inocentado de tudo. Como estava bastante fragilizado, essa notícia foi o estopim. Ele entrou no plantão da delegacia [na 31ª DP, em Planaltina], foi até onde as armas ficam guardadas e atirou na própria cabeça”, relembra a viúva.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o ambiente de trabalho dos policiais só não é pior que o dos mineiros. De maneira geral, o Departamento de Polícia Federal não oferece atendimento psicossocial adequado. Atualmente, são sete profissionais para uma demanda de mais de 11 mil agentes e militares no país inteiro. Quando eles são assediados, perdem a motivação e sofrem perseguições. Por medo de externar esse problema, podem acabar fazendo uma besteira. É preciso uma reformulação profunda.”

 

Flávio Werneck, presidente do Sindicato dos Policiais Federais do DF

 

Além da depressão profunda, Francisco sentia constrangimento por responder a um processo na corporação, reação comum entre policiais com muitos anos de serviço prestados sem alterações disciplinares ao longo da carreira. “Como muita gente ficou sabendo, meu marido ficou com vergonha. Aquilo o deixou triste e magoado e ele acabou se afundando no álcool”, conta Maria das Graças.

No Distrito Federal, não há estatísticas oficiais sobre suicídio entre policiais civis e militares. Devido ao tabu e ao preconceito, muitos casos são subnotificados. As histórias que se tornam públicas chocam. No dia 21 de março deste ano, em um intervalo de 10 horas, dois PMs se mataram na cidade.

A primeira ocorrência foi registrada no Guará II, às 13h58, quando uma tenente foi encontrada sem vida por uma amiga. Ela teria usado a própria arma para se matar. Por volta de 0h30 do mesmo dia, um sargento morreu em Samambaia Norte. De acordo com os registros policiais, a mulher o encontrou morto no banheiro. Ele tinha 19 anos de profissão.

No primeiro caso, o tenente-coronel Márcio Barbosa da Silva foi afastado das funções de chefia após ser alvo de investigação para apurar se ele teria induzido a subordinada ao suicídio.

A Promotoria de Justiça Militar do MPDFT e Corregedoria da corporação passaram a cuidar da investigação. O afastamento se deu a pedido do encarregado do Inquérito Policial Militar (IPM) em questão, que tramita no Departamento de Controle e Correição. Além disso, o oficial teve o porte de arma suspenso, o passaporte recolhido e está proibido de assumir função de comando. A sindicância ainda não foi finalizada.

“Fiquei duas horas falando com uma atendente do CVV. Aquilo me trouxe conforto e postergou por alguns dias a decisão de me matar”, conta o agente da Polícia Federal Alexandre Sally.

Os sentimentos de perseguição e injustiça também levaram o agente da Polícia Federal em São Paulo Alexandre Sally a quase seguir um caminho sem volta. Ele alega ter sido acusado erroneamente de corrupção em um inquérito aberto pela própria PF. Por falta de provas, a investigação foi arquivada.

Colegas de corporação chegaram a executar um mandado de busca e apreensão em sua residência. Com o processo se arrastando na Justiça e sentindo-se perseguido pela chefia à época, tornou-se depressivo ao ponto de não ter forças para levantar da cama e tomar banho.

“Eu já tinha executado diversos mandados de busca e apreensão. Mas foi humilhante chegar na minha casa e ver tudo revirado, roupas no chão e papéis espalhados. Comecei a pensar: ‘Se a PF fez isso com um policial, imagina com outros cidadãos?’. Isso me derrubou”, desabafa.

A Unicamp tem um estudo demonstrando que 17% dos brasileiros, em algum momento da vida, pensaram em desistir de viver. Porém, verbalizar esse sentimento ainda é um tabu muito grande e se torna potencializado nas forças de segurança. Somado a isso, tem o agravante do receio de ficar taxado caso procure assistência de algum profissional na saúde mental. Quando nos ligam, nós, do CVV, procuramos criar um ambiente tranquilo para que a pessoa reorganize as ideias e encontre a melhor saída para aquele sofrimento tão intenso.”

 

Carlos Correia, voluntário e coordenador do Centro de Valorização da Vida (CVV)

 

Ao não ver saída para o sofrimento, Sally chegou a colocar a pistola na cabeça por alguns segundos, só não apertou o gatilho porque, na hora, lembrou da família. “Naquele momento, eu pensei: ‘O que estou fazendo? Minhas filhas são pequenas e frágeis, não precisam sofrer o julgamento da sociedade por terem um pai suicida’. Em seguida, liguei para um meu amigo e pedi para ele levar com ele todas as minhas armas”, relembra.

De acordo com Sally, um conforto em meio aos sentimentos negativos foi ligar para o telefone 188, do Centro de Valorização à Vida (CVV). A instituição realiza prevenção ao suicídio, atendendo gratuitamente, por telefone, e-mail e chat pessoas que precisam de apoio emocional.

“Fiquei duas horas falando com uma atendente. Aquilo me trouxe conforto e postergou por alguns dias a decisão de me matar”, conta Sally. Atualmente, ele preside o Sindicato dos Policiais Federais do Estado de São Paulo.

 

Tratamento, amor e esporte contra a doença

A cabo Simone Sampaio da PMSP sobreviveu a três tentativas de suicido. Para vencer a depressão, ela passou praticar atividades físicas ao lado do marido Flavio.

Um amor que nasceu graças aos plantões policiais quase morreu dentro do quartel. Há duas décadas, Simone Sampaio e Flávio Souza, 45 e 43 anos, respectivamente, eram recém-formados na PMSP. Durante os atribulados expedientes dos fins de semana, se apaixonaram e, em poucos meses, namoraram, noivaram e casaram. Alguns anos depois, Simone sentiu o peso da intensa e desgastante atividade. Com duas filhas pequenas, o casal fazia bicos durante as folgas para incrementar a renda mensal.

No entanto, o tempo longe das meninas e a carga excessiva de trabalho cobraram um preço alto. Simone entrou em parafuso. Por três vezes, a cabo da PMSP tentou pôr fim ao sofrimento da forma mais terrível. “Da primeira vez, tive um surto dentro de casa, acordei desesperada e comecei a quebrar tudo. Na hora que corri para pegar o revólver na gaveta, meu marido conseguiu me desarmar”, diz.

Na segunda ocasião, ela foi para uma das avenidas mais movimentadas da capital paulista e se jogou na frente de um ônibus. O motorista do coletivo conseguiu desviar e Simone foi retirada da rodovia por PMs que patrulhavam a região. Na última tentativa, decidiu dar cabo da própria vida com a arma usada tantas vezes para manter a ordem na comunidade onde presta serviço, na periferia de São Paulo.

A depressão está erroneamente atrelada à luta manicomial e à esquizofrenia, além disso, há pouco conhecimento sobre o assunto. Muitas vezes, violência, irritabilidade, compulsão por compra, falta de libido sexual já são sintomas de adoecimento do policial. Quando o profissional veste a farda, ele aumenta seu autoempoderamento, acha que é um super-homem e não fala dos problemas para a família. E, quando procura um médico, evita o psicólogo ou o psiquiatra, porque sente vergonha. Essas coisas, no dia a dia, podem potencializar o desejo de tirar a própria vida.”

 

Patrícia Cruz, psicóloga, gestora pública pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em saúde mental na segurança pública.

 

Graças à sensibilidade do comandante de Simone, ela renunciou à ideia e entregou a pistola. “Sentia um vazio muito grande, não suportava viver. Ver meu marido sofrer com tudo aquilo me machucava ainda mais. Na minha cabeça, eu deveria morrer para ele poder voltar a ser feliz”, diz a cabo.

Afastada das funções de patrulhamento ostensivo e submetida a um intenso tratamento psiquiátrico, Simone apresentou evolução em seu quadro clínico. O esporte foi fator crucial para ela vencer de vez a depressão. O marido, Flávio, a convenceu a praticar atividades físicas. Começaram com curtas e lentas caminhadas, evoluíram para trotes e, atualmente, os dois participam de corridas de rua. Na última prova, o casal de PMs correu 21 quilômetros.

Hoje, 25 quilos mais magra, ela usa o próprio testemunho para encorajar outros colegas de farda a buscarem ajuda. “Tive assistência impecável do comando da minha corporação e meu marido foi uma fortaleza. Policiais têm de entender que não são super-homens nem supermulheres. Por trás dessa farda, existe um ser humano, com suas fragilidades e sentimentos.”

 

Modelo de gestão inadequado

Para a psicóloga Patrícia Cruz, a soma de vários fatores contribui para o adoecimento dos agentes de segurança pública. “O modelo de gestão nas polícias é inadequado, pois esses profissionais têm uma excessiva carga de trabalho em razão do déficit de efetivo, não têm disponível os equipamentos mais modernos, não recebem capacitação adequada, não se sentem reconhecidos pela instituição nem pela sociedade. Ainda lidam diariamente com a injustiça e precisam prover a ordem social”, elenca a especialista em saúde mental e gestão de pessoas pela Fundação Getulio Vargas (FVG).

Por sentir na pele todos esses aspectos apontados pela psicóloga Patrícia Cruz, o soldado reformado da Polícia Militar paulista Antônio Sobrinho decidiu transformar a sua traumática experiência de vida em um projeto que, atualmente, dá assistência a milhares de PMs no estado.

Há duas décadas, ao trocar tiros com criminosos, Sobrinho acabou atingido nas costas e ficou paraplégico. Antes do confronto que o deixaria para sempre em uma cadeira de rodas, o PM já se queixava da falta de estrutura oferecida aos membros da corporação. Depois do acidente que lhe tirou os movimentos da cintura para baixo, veio a depressão e a sensação de desassistência.

“Já saí do hospital extremamente fragilizado e depressivo. No começo, não tinha controle dos esfíncteres e acabei evacuando na roupa. Imagina eu, um policial sempre envolvido no operacional, ser lavado pela minha esposa? Num dado momento, peguei a arma, coloquei na boca e nem sei o que me fez não puxar o gatilho”, relembra Sobrinho. Depois do episódio, ele fundou a Associação dos Policiais Militares Portadores de Deficiência de São Paulo, entidade que oferece assistência psicossocial, fisioterapia e outros serviços médicos a PMs da ativa, da reserva e a seus familiares.

 

Existe saída

“Meu conselho? Se apegue a quem você ama e dê valor às suas próprias conquistas. Nós, policiais, ainda somos necessários para fazer um país melhor”, ensina a agente de Polícia Civil do DF Carolina Hoff após vencer a depressão.

Excesso de trabalho, sucateamento da instituição e falta de reconhecimento são as causas apontadas pela agente de Polícia Civil do DF Carolina Hoff para a sua tristeza profunda que se converteu em depressão. A servidora chegou a amamentar, durante o expediente, o bebê de uma mãe recém-presa. A funcionária pública usa o exemplo para ilustrar como policiais vivem sempre no fio da navalha e expostos a julgamento.

“Eu havia me tornado mãe recentemente e ainda tinha muito leite. Aquela criança estava faminta e saciei a fome dela. Mesmo com um gesto que considerei nobre, acabei criticada por colegas dentro da corporação”, lamenta.

Em seguida, Carolina chegou ao fundo do poço com o fim do casamento e parou de ver sentido na vida. Após passar por dezenas de consultas com psicólogos e estreitar ainda mais o relacionamento com o filho e com a mãe, conseguiu controlar a doença e voltou a ser uma mulher feliz. Hoje, ela usa a superação como combustível para ajudar amigos da corporação a identificarem e tratarem os sintomas da depressão.

“Fiz um compromisso de não perder a minha essência e manter a minha maneira de encarar a vida. Meu conselho? Se apegue a quem você ama e dê valor às suas próprias conquistas. Nós policiais, ainda somos necessários para fazer um país melhor”, ensina.

Fonte: Portal Metrópoles