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Atlas da Violência 2019: nunca se matou tanto por armas de fogo no Brasil

Os dados de 2017 do atlas da violência demonstram que foram mais de 65 mil pessoas assassinadas no Brasil. Dessas, 47 mil, cerca de 70% dos homicídios, foram por arma de fogo. O aumento de mortes por disparo foi de 6,8% entre 2016 e 2017. É um cenário lamentável e um patamar inédito.

O Atlas da Violência é produzido anualmente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A pesquisa demonstrou ainda que 6% do Produto Interno Bruto (PIB) é usado em ações contra violência. Isso é mais do que 12 vezes o investimento em Segurança Pública, que poderia justamente prevenir esses crimes. Com base no estudo, o custo da violência em 2016 chegou a cerca de R$ 373 bilhões.

 

Porte e posse de arma

Pela série histórica da pesquisa, é sabido que ao menos um milhão de brasileiros foram assassinados por arma de fogo entre 1980 e 2017. Na contramão do Estatuto do Desarmamento, os registros demonstram um aumento constante no número de armas em posse de civis desde 2017. Até abril de 2019, também houve alta de 10% em relação a 2018 nos registros para a posse de armas concedidos pela Polícia Federal.

No entanto, o crescimento no número de registros, de porte e posse de armas, não é a raiz do problema. O tráfico de armas no Brasil é hoje o segundo maior foco da Polícia Federal nas fronteiras de nosso País, perdendo somente para o tráfico de drogas. Dados levantados pelo Ministério da Justiça (MJ) revelaram que mais da metade das armas de fogo que circulam no País são ilegais. O foco do combate à violência armada deve ser na entrada do armamento ilegal por nossas fronteiras devassadas: marítima, aérea e terrestre.

 

Banco de dados deficiente

O Atlas da Violência é elaborado de acordo com registros oficiais do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde (SIM/MS). Pela primeira vez, esses dados entraram em choque significativo com os divulgados pela Segurança Pública. A diferença entre os dois sistemas atingiu 2,7%.

Até hoje, as polícias brasileiras não possuem um banco de dados integrado, o que contribui para essa defasagem. Os dados do MS nos dão uma visão do tamanho do problema e de quem são as vítimas dos homicídios. Por outro lado, não temos maiores detalhes sobre quem são os criminosos. Não apenas pelo problema do banco de dados, mas também pela baixa resolutividade de crimes no País que não ultrapassa a casa dos 8%.

 

Ceará lidera estatísticas

Na pesquisa também ficou claro como o cenário é diferente a depender da região geográfica no País. Levando em consideração os dados de 2017, houve um crescimento nos índices de sete estados e uma diminuição em 15 deles.

Ceará e Acre, com alta de 48,2% e 39,9%, respectivamente, são os que devem preocupar as autoridades. Como já sabemos pela quantidade de rebeliões e motins que vem ocorrendo no Ceará, os dados são negativos devido ao crescimento da presença de organizações criminosas naquele Estado. O Acre, por sua vez, faz parte de mais de 10 rotas do tráfico de entorpecentes vindos do Peru e da Bolívia.

Além disso, é preciso estar atento à mudança “socioeconômica” por parte dessas facções. Com o endurecimento do judiciário e políticas públicas de reação ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho – duas das maiores facções no Brasil, originadas em São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente -, os criminosos migraram para os estados nordestinos e nortistas.

O Atlas da Violência se refere a esses estados como uma “bomba-relógio”. Eles podem explodir em novos confrontos e rebeliões sem aviso prévio.

Já no Distrito Federal, por exemplo, a baixa foi de 21,4%. Isso acompanha uma tendência para o Centro-Oeste.

 

Pessoas em risco

A pesquisa ressalta ainda o perfil socioeconômico das vítimas, formando os maiores “grupos de risco”. Os jovens de 15 a 29 anos formam a parcela mais atingida pela violência. Foram assassinados 35.783 jovens em 2017. Ou seja, 69,9 mortes a cada 100 mil. Mais um infeliz recorde dos últimos 10 anos. Os homicídios foram a causa de 51,8% de todas as mortes na faixa de 15 a 19 anos. Em 15 estados, a taxa de jovens mortos foi superior à média nacional. Além dos jovens, o estudo detalha os crimes em razão da cor, gênero e opção sexual.

 

Acesse o estudo na íntegra.